Arquivo da tag: ego

Ilusão

DSC_8061A contra-parte da realidade é a ilusão.  Mas, se mostramos em outro artigo (v. abaixo, “Realidade”) que a realidade é subjetiva, e é aquilo que interpretamos do mundo, como podemos nos iludir?  Isso seria o mesmo que o Ego enganar a si mesmo.

Esse engano ocorre em dois níveis.  No primeiro, é a identificação do Ego com a Persona.  E a Persona é a máscara social que o Ego cria para relacionar-se com os outros.  Podem ser várias, uma para cada meio social em que nos inserimos.  O equívoco é a identificação tão profunda que acabamos por pensar que somos aquela imagem.  Que somos “o profissional”, “o filho”, “o líder”, a “esposa”, ou o “pai de família”, etc.  Essa identificação gera apego a essas imagens, que são por sua própria natureza transitórias, e lutamos por conservá-las como lutaríamos para conservar nossa própria existência.  Assim sofremos com cada transformação como quem morre centenas de vezes numa mesma vida.

O outro nível da ilusão é o próprio Ego.  Como nossa atividade psíquica é parte consciente, parte inconsciente, pensar que somos apenas o nosso Ego é como pensar que só temos um braço ou uma perna.  Existe uma entidade maior, o Self, somatório, por assim dizer, do Inconsciente e do Consciente.  O Self é o produto do ser individuado, que se tornou plenamente consciente do seu Inconsciente.  E através deste, vamos conhecer o Inconsciente Coletivo.  Aí cessam as ilusões, e podemos ver o mundo como é, e também nossa própria realidade interior – a verdade última.

Jung pensava que o processo de individuação, ou processo de reconhecimento do Inconsciente, nunca terminava.  Eu prefiro acreditar que sim, existe um ponto final, na linha do pensamento de muitas escolas orientais, particularmente o budismo.  Esse ponto final seria a iluminação, o estado de buda, onde cessa todo o sofrimento e escapamos da roda do samsara.  Mas o mais importante é que, mesmo que não cheguemos agora nesse estágio, o caminho que leva até lá já é por si só muito proveitoso.  À proporção em que cessam nossas ilusões, e que podemos ver a realidade, ainda que não de uma forma total e completa, já reduzimos nossa carga de sofrimentos.

Não nos fixemos em nossas Personas.  Elas são tão importantes como a roupa que vestimos.  Traduzem uma parte de nossa personalidade, mas nós somos muito mais que elas.  São úteis como meio de comunicação com os outros, mas é no nosso Self que surge a mensagem a comunicar.  Assim nos tornamos verdadeiros conosco mesmos e com as outras pessoas.  Isso é o que significa ser íntegro.  Um único ser, uma única realidade interior, o ser integral.  E a ausência de conflitos interiores é o caminho da verdadeira felicidade.

Realidade

DSC_8620A realidade última das coisas tem sido um tema constante da ciência e da filosofia. Eu, pretensiosamente, me arrisco a contribuir com essa discussão.

Nossa psique tem um componente que diz “eu sou”, o autoconsciente Ego. A partir do momento em que somos autoconscientes (e note que não nascemos assim, a autoconsciência se desenvolve progressivamente durante a vida), separamos o mundo em dois (fazemos a “clivagem”) – sujeito (eu) e objeto (todo o restante).

Mas o objeto, para o sujeito, só tem existência (ou só é real) porque ele o observa. E o ato de observar é centrípeto, vem de fora mas é direcionado ao interior. A realidade última é sempre subjetiva. Por exemplo, tomemos a já muito contada estória do cego de nascença que nunca viu um arco-íris. Por mais que se explique o fenômeno da refração, da separação da luz branca em faixas de cores que se intercalam, o máximo que nosso amigo terá é um construto racional, mas o arco-íris como o vemos nunca existirá para ele. Por outro lado seu mundo tem sons, odores e sensações tácteis que nunca conheceremos. Portanto, a realidade para ele é totalmente distinta da nossa.

Mas esse é apenas um caso extremo. Na verdade, todos somos cegos para algumas coisas e extraordinariamente sensitivos para outras, o que nos dá uma visão única e individualizada da realidade objetiva, ou seja, nossa realidade subjetiva é diferente da dos outros. Mas aí vem a questão – como podemos provar que existe uma realidade objetiva, se tudo que podemos fazer é comparar, como cegos tentando explicar a videntes, e videntes a cegos, nossas realidades subjetivas?

Pouco importa. O que conta é a nossa interpretação do mundo. A realidade é relativa, e o referencial é o Ego.

Mas notemos que, além do mundo subjetivo consciente existe outro, o mundo do Inconsciente. Nele também processamos as informações que se aí infiltram, vindas do Consciente. E nesse campo escuro dos sonhos, outra vez a realidade toma uma forma completamente distinta. Aí cada um de nós tem complexos distintos escondidos, experiências traumáticas únicas que constelam em torno de si emoções, e que interferem diretamente com a percepção da realidade objetiva. E essa realidade inconsciente permeia em retorno ao Consciente, interferindo também com a visão que o Ego tem do mundo.

Apenas notemos que, no Inconsciente, existe um fator que nos correlaciona enquanto seres humanos – o Inconsciente Coletivo. Descoberto por Jung, é nesse nível que residem os arquétipos que nos identificam coletivamente. E a realidade objetiva, quando processada em referencia a eles, apresenta pontos em comum entre todos nós. Nos faz semelhantes, constrói nossa identidade como espécie.

Ou seja, embora nossa visão da realidade objetiva seja individualizada, e que a nível do Ego isso seja aparentemente muito claro, também tem pontos em comum com toda a espécie humana. Os arquétipos do Inconsciente Coletivo criam, por assim dizer, pontes, que nos comunicam a todos, embora não estejamos cientes disso.

Por isso, no fim a realidade é individual, mas existem pontes simbólicas de conexão entre a minha realidade e a das outras pessoas, o que nos permite partilhar e comparar ideias, visões, interpretações, senso estético e crítico, etc. Nossa psique é individualizada, mas tem forte correlação com as individualidades dos nossos semelhantes.