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Realidade

DSC_8620A realidade última das coisas tem sido um tema constante da ciência e da filosofia. Eu, pretensiosamente, me arrisco a contribuir com essa discussão.

Nossa psique tem um componente que diz “eu sou”, o autoconsciente Ego. A partir do momento em que somos autoconscientes (e note que não nascemos assim, a autoconsciência se desenvolve progressivamente durante a vida), separamos o mundo em dois (fazemos a “clivagem”) – sujeito (eu) e objeto (todo o restante).

Mas o objeto, para o sujeito, só tem existência (ou só é real) porque ele o observa. E o ato de observar é centrípeto, vem de fora mas é direcionado ao interior. A realidade última é sempre subjetiva. Por exemplo, tomemos a já muito contada estória do cego de nascença que nunca viu um arco-íris. Por mais que se explique o fenômeno da refração, da separação da luz branca em faixas de cores que se intercalam, o máximo que nosso amigo terá é um construto racional, mas o arco-íris como o vemos nunca existirá para ele. Por outro lado seu mundo tem sons, odores e sensações tácteis que nunca conheceremos. Portanto, a realidade para ele é totalmente distinta da nossa.

Mas esse é apenas um caso extremo. Na verdade, todos somos cegos para algumas coisas e extraordinariamente sensitivos para outras, o que nos dá uma visão única e individualizada da realidade objetiva, ou seja, nossa realidade subjetiva é diferente da dos outros. Mas aí vem a questão – como podemos provar que existe uma realidade objetiva, se tudo que podemos fazer é comparar, como cegos tentando explicar a videntes, e videntes a cegos, nossas realidades subjetivas?

Pouco importa. O que conta é a nossa interpretação do mundo. A realidade é relativa, e o referencial é o Ego.

Mas notemos que, além do mundo subjetivo consciente existe outro, o mundo do Inconsciente. Nele também processamos as informações que se aí infiltram, vindas do Consciente. E nesse campo escuro dos sonhos, outra vez a realidade toma uma forma completamente distinta. Aí cada um de nós tem complexos distintos escondidos, experiências traumáticas únicas que constelam em torno de si emoções, e que interferem diretamente com a percepção da realidade objetiva. E essa realidade inconsciente permeia em retorno ao Consciente, interferindo também com a visão que o Ego tem do mundo.

Apenas notemos que, no Inconsciente, existe um fator que nos correlaciona enquanto seres humanos – o Inconsciente Coletivo. Descoberto por Jung, é nesse nível que residem os arquétipos que nos identificam coletivamente. E a realidade objetiva, quando processada em referencia a eles, apresenta pontos em comum entre todos nós. Nos faz semelhantes, constrói nossa identidade como espécie.

Ou seja, embora nossa visão da realidade objetiva seja individualizada, e que a nível do Ego isso seja aparentemente muito claro, também tem pontos em comum com toda a espécie humana. Os arquétipos do Inconsciente Coletivo criam, por assim dizer, pontes, que nos comunicam a todos, embora não estejamos cientes disso.

Por isso, no fim a realidade é individual, mas existem pontes simbólicas de conexão entre a minha realidade e a das outras pessoas, o que nos permite partilhar e comparar ideias, visões, interpretações, senso estético e crítico, etc. Nossa psique é individualizada, mas tem forte correlação com as individualidades dos nossos semelhantes.